O Vício de ser ciclista
Acordar, levantar, comer alguma coisa e seguir para a rua. Essa é a rotina, talvez não para todos, mas para a absoluta maioria dos urbanóides. Alguns fatores são responsáveis pela motivação do primeiro passo fundamental, sair da cama.
Controlados pelos relógios que nos despertam, assim que saímos de casa o espaço também passa a nos reger. Afinal com exceção dos que trabalham em casa, chegar ao local de trabalho ou estudo envolve cumprir uma certa distância seja a pé ou em algum meio de transporte. Nesse ponto a vantagem relativa de ser ciclista é raramente superável. Afinal a bicicleta é o meio de transporte mais confiável para ir do ponto A ao ponto B em uma cidade.
No entanto, ser um ciclista cotidiano também implica em ver-se imerso em uma rotina de emoções e sensações que alguns já definiram como vício.
A primeira pedalada é quase mágica, depois dela os quilômetros seguintes pertecem ao ciclista, um ser híbrido. Usina viva de transformação de biomassa em potência e um máquina perfeita para fazer da energia acumulada movimento.
Ciclista é aquele que pode variar o caminho por qualquer motivo e seguir sempre pelos mesmos por opção. Ser ciclista é sentir o coração pulsar mais rápido no semáforo fechado logo depois de uma subida. Ser ciclista é divertir-se no trajeto e repor as energias vitais consumindo calorias. É ser viciado em endorfina sem saber o que isso significa. Ciclista é quem coloca o primeiro pé no pedal e sente-se dono do mundo e sorri para os outros ciclistas, afinal eles também são os donos do mundo.
Utilizar a bicicleta é ter o domínio do tempo e do espaço. É percorrer trajetos olhando a frente, ciente de que todas as barreiras são transitórias e de que um semáforo fechado é só uma luz vermelha que se acende para você poder para e observar os arredores do seu trajeto na sua cidade. Ser ciclista é ser dono sem ser egoísta. É simplesmente mover-se utilizando a sua própria energia.
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Onde a Massa Crítica é mais massa
Foto: Szilveszter
Budapeste, 22 de abril de 2010, dia da Terra.
Tilt & Shift Critical Mass from daniel fiantok on Vimeo.
vídeos via: Critical Mass.hu
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Como começar bem o dia
A maneira como escolhemos ir de um lugar a outro na cidade influi diretamente sobre nossa percepção em relação a cidade.
Começar bem o dia de bicicleta é aquela velha história do vento no rosto e a endorfina no sangue. Mas um "experimento pedestre" vale a pena ler.
Rodolpho foi ao trabalho a pé e resolver dar "bom dia" a todas as pessoas que encontrasse no caminho, sem exceção. Do porteiro do prédio até o pessoal da reforma, todo mundo foi saudado igual.
Resultados obtidos:
1. Moradores de rua, ciclistas e pedestres de calça jeans: responderam com “bom dia”;
2. Motoristas: não responderam e colocaram uma cara que eu descreveria como “vou te atropelar”;
3. Pedestres em roupa social ou terno: ignoraram;
4. Pedestres do sexo masculino, quando há uma bunda feminina para observar: ignoraram o “bom dia” também.Conclusões:
1. Motoristas odeiam pedestres que andam mais rápidos que eles;
2. Preciso fazer a barba e cortar o cabelo, os moradores de rua estão me achando um deles;
3. Roupa social e bundas femininas tornam uma pessoa mais arrogante.
Pode ser uma experiência maluca ou uma pequena tese de antropologia, mas com certeza é sempre divertido estar vivo e experimentar sua própria cidade.
Leia a postagem original: "Experimento Matutino".
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Pela manutenção da lei da inércia
Uma lei no estado de Idaho nos Estados Unidos existe desde os anos 1980 e permite que ciclistas cruzem sem parar por placas de "pare". É possível tomar tal atitude com segurança pela visibilidade e agilidade que um ciclista em movimento tem. Sem barreiras ao olhar, é possível definir quando e se é possível parar em um determinando cruzamento, tudo em nome da inércia.
Abaixo um vídeo explicativo demonstra a simplicidade do conceito e a necessidade de se adotar regra semelhante no estado de Oregon. Infelizmente a legislação não foi aprovada, o que faz do pequeno Idaho pioneiro e único em possibilitar que o ciclista julgue se é necessário ou não seguir a orientação de parar.
Uma tradução aproximada:
A bicicleta é provavelmente o meio de transporte mais eficiente jamais inventado.
Um ciclista mediano gera apenas 100 watts de potência, aproxidamente a mesma energia necessária para acender um lâmpada. Compare isso com a potência média de um automóvel, o suficiente para ligar 100.000 lâmpadas. E ainda assim, uma bicicleta pode ser uma alternativa viável ao automóvel.
A eficiência da bicicleta é quase inteiramente dependente da sua inércia. Uma bicicleta em movimento funciona no seu pico de eficiência. Até mesmo quando diminui a velocidade, ela continua eficiente. Somente uma parada por completo acaba com toda a energia disponível para o ciclista. Por conta disso, os ciclistas fazem o possível para manter sua inércia e usar da maneira mais eficiente possível os seus 100 watts de potência.
Mesmo que desejem manter-se em movimento, a maioria dos ciclistas se aproxima de cruzamentos de parada obrigatória com o máximo de cuidado. Nem que seja pela noção de que eles tem mais a perder em caso de colisão. A maioria dos ciclistas se aproxima de uma placa de "Pare" com a cautela que aprenderam nas lições da autoescola (*). Eles diminuem a velocidade, olham para a esquerda, depois para a direita e para a esquerda novamente. Antes de prosseguir, eles se asseguram de que a passagem está livre e de que tem a preferência no cruzamento. Muitos, ou até mesmo a maioria, são capazes de fazer tudo isso e ainda preservar um mínimo de inércia. Essa aproximação de uma placa de "pare" é conhecida como "parada em movimento".
A "lei do Idaho" iria permitir que ciclistas tratassem uma placa de "pare" como uma de "dê a preferência". Iria portanto legalizar essa prática corriqueira de "paradas em movimento". Por conta disso iria também incentivar o uso seguro e eficiente da bicicleta como meio de transporte. A segurança da proposta é inquestionável, já que se baseia em uma lei existente há mais de 27 anos no Idaho. E o histórico de segurança no trânsito para bicicletas é excelente no estado. Mesmo sendo majoritariamente rural, Idaho é um bom comparativo com o Oregon, já que Boise (a maior cidade no Idaho) seria a segunda mais populosa cidade no Oregon.
É bom lembrar que nem a lei do Idaho, nem a lei de Oregon permitem que um ciclista atravesse um cruzamento em alta velocidade. Cruzar direto por uma placa de "pare" é perigoso, inconsequente e desrespeitoso com o direito dos outros. Na lei do Oregon, a multa para tal infração seria ainda mais alta do que no Idaho.
Por fim alguns exemplos como a lei do Idaho funciona na prática. Em resumo, o ciclista só tem o direito de "parar em movimento" quando o cruzamento está livre de pedestres e ciclistas e ele tem a preferência. Em todos os casos, a placa para passa a significar "dê a preferência".
A lei do Idaho iria simplesmente assegurar que usar uma bicicleta continue tão seguro quanto é agora, mas mais eficiente, prazeroso e portanto mais viável com um meio de transporte limpo, saudável e de baixo impacto.
(*) A maioria dos motoristas norte-americanos aprende a dirigir na escola e portanto é comum que mesmo ciclistas tenham noções de direção ou até uma carteira de habilitação.
A abordagem dinamarquesa foi ainda mais eficiente, com uma "onda verde" que assegura que o ciclista que mantiver uma velocidade constante não irá parar nunca no principal eixo cicloviário de acesso ao centro de Copenhague. Confira o post "Prioridade absoluta para bicicletas".
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Pedestres e comércio
Associações de lojistas e comerciantes em geral tendem a ser contra iniciativas que abram espaço para a livre circulação de pedestres em detrimento do fluxo motorizado. Felizmente acabam sendo sempre maravilhosamente desacreditados em suas previsões e medos iniciais.
Calçadões e ruas exclusivas para pedestres tendem a atrair mais pessoas e a instalar um ambiente favorável para vendas. Até porque somente estacionamentos tem no fluxo de automóveis a sua atividade final. Pessoas são as responsáveis por comprar, comer e consumir diversão.
Cada rua a mais para o trânsito exclusivos de pessoas é uma benesse para as cidades e ajuda a estimular a demanda que precisamos no espaço urbano. A demanda por qualidade de vida e convívio humano, onde é importante estar e não cruzar em alta velocidade rumo a um destino distante em que as ruas não passam de um borrão indistinto de prédios.
Ruas para pedestres são mais do que "centro de compras a céu aberto", por serem de livre circulação para todos. Elas fazem mais sentido com uma rede de transporte que dê suporte ao grande afluxo de pessoas. Até porque a valorização do espaço tende no longo prazo a inviabilizar o uso de terrenos como espaço para estacionamento, ou ao menos desencorajam viagens motorizadas pelo alto custo para estacionar.
A foto que ilustra esse post é na mesma rua da foto abaixo. É a Calle Fuencarral em Madrid que antes era assim:
As imagens de Madrid foram retiradas de um post no blog português "Menos um carro" que trata de uma reportagem no New York Times. O jornal norte-americano menciona como o comércio da Calle Fuencarral se tornou mais vigoroso depois que as pessoas puderam circular livremente. Bom para as grifes internacionais e as pequenas lojas de estilistas instaladas lá. Tudo partindo da premissa de que as pessoas tendem a frequentar mais um lugar onde podem caminhar com conforto e tranquilidade, sem se esbarrarem umas nas outras.
O Brasil também tem o exemplo pioneiro de Curitiba, cidade modelo nos anos 1970 e que hoje enfrenta enormes desafios pelo crescimento demográfico que sofreu. Fruto, em grande parte, da qualidade de vida de parques, o primeiro calçadão do Brasil e um sistema inteligente de transporte. Um trinca de boas iniciativas urbanas que atrairam pessoas e novos negócios para a cidade.
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Sonhos Dourados
Portugal The Man "Everyone Is Golden" Preview
Apenas uma banda, apenas bicicletas e tudo em meio a um por do sol em Portland. Visto primeiro no Bicicleta na Cidade.
Vale a pena ouvir mais no site da "Portugal. The Man". Nem que seja para ao comprovar que a banda vai além de um vídeo de 44 segundos de felicidade em bicicleta.
Massa Crítica ou Falha Crítica?
Vamos deixar uma coisa clara. Embora não sejamos ativistas que carregam faixas e apitos, achamos que o ativismo é fantástico. Damos todo nosso apoio, especialmente ao ativismo que busca criar uma cultura da bicicleta, como há em Copenhague e outras cidades do mundo.
Apenas sentimos necessidade de fazer o papel de advogado do diabo em relação ao movimento Massa Crítica (Bicicletada).
É um conceito brilhante. Democracia por princípio. Celebração, sim. Mesmo que haja apenas um par de dezenas de ciclistas. Gostaríamos de pedalar em Budapeste, com dezenas de milhares de outras bicicletas. Seria excitante. Também achamos que movimentos como a Pedalada Pelada (Naked Bike Ride) abordam questões importantes, e com humor.
Não aprovamos a repressão policial exagerada que ocorre em várias cidades, mas também não temos admiração por aqueles ciclistas que são agressivos com os motoristas. A democracia torna-se anarquia. Da mesma forma, não apreciamos a atitude elitista de muitas pessoas do movimento ambientalista. Aquelas que olham com desprezo para os motoristas.
Entendemos que o objetivo da Massa Crítica é chamar a atenção para a necessidade de uma cultura da bicicleta e todas as vantagens ambientais inerentes a isso. O que é muito bom. Portanto, um dos principais objetivos é fazer com que mais pessoas usem suas bicicletas. Por qualquer motivo: sustentabilidade, redução da dependência do petróleo, melhor saúde para seus concidadãos.
Se for assim, a Massa Crítica funciona? Não temos certeza. Passados 15 anos, existe alguma cidade que alcançou melhorias suficientes para aproximá-la da cultura da bicicleta que se vê em muitas cidades européias?
Uma Alternativa Simples
Nós sabemos que vemos uma simples alternativa. Um caminho mais fácil. E se todos aqueles ciclistas da Massa apenas pedalassem suas bicicletas todos os dias? Com roupas normais, como pessoas normais? Tal como os milhões de cidadãos dos países ao norte da Europa.
O que poderia acontecer?
Conheça nosso personagem – o Sr. Motorista. Ele dirige de casa para o trabalho e vice-versa, como sempre faz. Ouvindo a mesma estação de rádio. Mesma rota, com pequenas variações. É o que ele faz.
É um cidadão mediano numa sociedade do automóvel. Como a grande maioria, ele não é um ativista ambiental e nunca, jamais será.
Sr. Motorista olha para fora das janelas de seu carro enquanto vagarosamente se move no trânsito. O que ele pensa quando vê um ciclista radical, vestindo lycra, numa bicicleta especial, indo acelerado em seu caminho no bordo da pista?
Sr. Motorista, no tráfego da manhã, poderia pensar, "Hmm. Eu poderia ir pedalando para o trabalho, também ..."
Contudo, ele não vai se ver refletido na imagem. Ele estará vendo um membro de uma sub-cultura, muitas vezes militante. Ele verá alguém que normalmente chama de "ambientalista" - um rótulo que não é positivo em muitas culturas. Ele vai ver uma pessoa vestindo um uniforme quase oficial – o Sr. Motorista não tem nada em seu armário que se assemelha aos apetrechos do ciclista - e ele verá uma bicicleta muito distante daquelas que já teve algum dia.
Ele vai perceber que, para andar de bicicleta, teria de se infiltrar em uma sub-cultura povoada por indivíduos muito diferentes dele mesmo. Teria que investir em equipamentos e roupas. Pior de tudo, ao pedalar, o Sr. Motorista veria a si mesmo levantando uma bandeira.
Sr. Motorista, como a maioria das pessoas, não quer levantar bandeiras. Ele só quer viver sua vida, não quer subir em palanques ou entrar para um grupo de ativistas ruidosos. Ele sabe que o meio-ambiente é uma questão importante. Ele conhece os fatos. Mas ele é apenas um cidadão comum e sempre será. Ele só pensa que pedalar de bicicleta para o trabalho seria agradável, saudável e mais rápido do que dirigir seu carro. Mas a idéia é rapidamente descartada.
Quando o Sr. Motorista fica preso no trânsito a caminho de casa por causa de um protesto/demonstração/celebração de bicicleta, isto não o convencerá mais facilmente a optar pela bicicleta. Ele, mais do que sempre foi, vai querer distância desta idéia. O cidadão comum não tem muito respeito por este tipo de ativismo. Gostaríamos que tivesse, mas não tem. Ele só vai ficar extremamente irritado.
Boa metáfora
Agora vamos imaginar o Sr. Motorista sentado no trânsito e olhando de relance para fora da janela. Ele Vê um sujeito passando. Uma pasta presa com elásticos no bagageiro traseiro. Vestindo um terno. Sem estar voando como se fosse quebrar recordes, apenas pedalando firme. O único equipamento é uma tira prendendo as pernas das calças e, se quiser, um capacete. Numa boa, sem desafiar o tráfego motorizado, apenas indo no fluxo. A bicicleta do homem parece aquela que está na garagem do Sr. Motorista.
Então o Sr. Motorista vê uma mulher passar por ele. Numa bicicleta confortável e charmosa. Sua pasta na cestinha, decorada com flores de plástico. A cesta, e não a pasta. Ela está usando uma saia e sapatos estilosos. Ouvindo seu iPod. Num ritmo sereno e constante.
Então, ousamos supor, o Sr. Motorista pensaria: "eu não me importaria de andar de bicicleta para o trabalho. São apenas 15 km. Esse cara se parece comigo. Mesma roupa. Mesma bicicleta. E essa mulher faz isso parecer tão fácil..."
Sr. Motorista veria a si mesmo no reflexo desses ciclistas. Ele iria perceber que, para pedalar ao trabalho, teria apenas que tirar sua bicicleta para fora da garagem, comprar uns clipes de perna e, se ele gostar, um capacete. Em muito menos tempo do que gasta para dirigir ao trabalho, ele estaria pronto para pedalar.
Ele não teria que levantar bandeiras. Ele seria apenas outro ciclista indo para o trabalho. Em harmonia. Ele sentiria como se estivesse fazendo algo de bom para si e para o planeta. Sem ter que gritar palavras de ordem para fazer isto.
Xis da questão
Aqui está o busílis. Todos aqueles que são muito entusiasmados em ajudar a aumentar o uso da bicicleta em áreas urbanas, compreendem como o cidadão comum pensa. Ajude o cidadão comum a fazer parte do grupo. Não o coloque contra a parede, destacando as diferenças entre você e ele. Estamos todos juntos nessa.
Ativistas são os primeiros da fila e todo louvor a eles, mas é o cidadão comum e seus companheiros que vão salvar o planeta no final das contas, se lhes for dada a oportunidade.
E, quando aumenta o uso da bicicleta, diminuem os acidentes com bicicleta e as cidades não terão escolha a não ser investir em infra-estrutura para bicicletas. Se você construir, elas virão.
Faça com que pedalar pareça fácil e o caminho rumo a uma cultura da bicicleta também o será.
Essa é a nossa opinião a respeito. Sinta-se livre para mandar seu comentário.
Esse texto é uma tradução de Critical Miss or Critical Mass?
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Construir, a parte fácil
Brasília foi desenhada na prancheta, fruto da mente criativa de Lúcio Costa e seu "plano piloto". Mas tão rígida nos planos, a nova capital federal não levou em conta o erro, o tempo e as incertezas. Todas as cidades não planejadas do mundo contém o erro ao longo de muitos anos e Brasília só teve 50 anos de interferências humanas não previstas.
Nem mesmo o mais "planificado planejamento" foi capaz de prever que ao invés de 500.000 a cidade fosse ter 2 milhões e 600 mil habitantes. Cercada de invasões e habitações informais das cidades satélites, Brasília reforça a distância física entre moradia e emprego, entre ricos e pobres. Niemeyer foi gênio da poesia com concreto, mas uma cidade não pode contar apenas com aço, asfalto, cimento e cabos de força.
A nossa capital federal, só é mesmo cidade por suas pessoas que garantem que toda a beleza e inovação arquitetônica dos traços de Niemeyer permaneçam firmes e bem cuidados. As rodovias que ligam a cidade e amplitude do horizonte do planalto central garantem a beleza da cidade construída, mas o desafio é garantir que esse espaço possa ser para as pessoas.
Cada superquadra é um pouco uma célula urbana quase autosuficiente, com comércio e moradia. No entanto a mesma amplitude que fascina o visitante é a que desincentiva a caminhada e a presença das pessoas nas ruas. A compartimentalização nunca fez bem as cidades, como diagnosticou Jane Jacobs.
Mesmo as vias expressas que funcionam como rodovias não foram capazes de abrigar o fluxo sempre crescente de veículos motorizados particulares e a cidade que nasceu sem semáforos hoje já convive com o malfafado congestionamento motorizado. Sinal do triunfo da mobilidade individual sobre o transporte coletivo, grande falha da capital federal.
Apesar de tudo, Brasília é o reflexo de um Brasil do passado que mirou longe rumo ao futuro. Não foi erro crasso, nem retumbante sucesso. Foi apenas um rascunho que virou maquete que ergueu-se em meio a poeira do cerrado para ser o símbolo de um Brasil que queria ir além do litoral atlântico, onde ainda vive a maioria absoluta dos brasileiros. Acabou sendo apenas uma cidade brasileira diferente e igual a todas as outras e marcadamente fruto de um tempo histórico em que o homem acreditava-se maestro do mundo.
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Superpoderes Ciclísticos: atingir a velocidade do pensamento
Um semáforo vermelho tem um significado especial para o ciclista urbano. Parar a bicicleta é matar a inércia e implica em um gasto extra de energia para recomeçar o movimento. Ciclistas não gostam muito, mas também param no sinal fechado. Para a moça da foto acima, é oportunidade de alongar a perna, mas é também vontade de manter-se flutando, sem tocar o chão. Mas pode ser muito mais.
Depois de uma ladeira, grande ou pequena, aquela luz vermelha é uma pausa. Momento de sentir o coração bater mais forte e ter a certeza de estar vivo. É sentir o poder do próprio corpo que requer grande esforço para manter-nos. No semáforo, o peito pulsa e na pausa merecida, dá para abrir o pulmão e inspirar um pouco mais forte o ar. Quando o sinal está fechado, dá para pensar no caminho, ouvir a rua ou definir o que preparar para o jantar.
No entanto, tem vezes em que a luz nunca fica vermelha. Aí dá para seguir constante com pensamentos cotidianos ou traçando planos para o resto da vida. Tendo como brinde a brisa e o vento, sentido nos braços ou nos cabelos que esvoaçam.
Mesmo parado em um semáforo vermelho, o ciclista está sempre na velocidade dos seus pensamentos e em movimento é capaz de quase alcançar o que pensa. Talvez seja pela invisibilidade da bicicleta que vira apêndice e integra-se ao corpo. Quem sabe até, o ciclista seja capaz de atingir a velocidade do pensamento, simplesmente por trafegar num tempo nem tão veloz que cegue os olhos, nem tão devagar que lhes cause tédio.
Para vender a bicicleta
Influenciar comportamentos é ao mesmo tempo o maior desafio e ambição da publicidade. O exemplo húngaro é maravilhoso por mostrar a bicicleta para não ciclistas e sempre de maneira positiva.
Trata-se de buscar o caminho que os publicitários chamariam de "aspiracional". Apesar da força da Massa Crítica na Hungria, o foco vai muito além de "nichos" ou de "tribos" de ciclistas. A idéia é mais bicicletas para mais pessoas mais vezes.
Simples, como a bicicleta.
Vídeos vistos primeiro no Copenhagenize.
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